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Proteção passiva contra incêndio nos projetos de instalações elétricas

Boa parte do que se faz em um projeto elétrico pretende evitar o surgimento de um incêndio. Dimensionar disjuntores para interromper um curto-circuito ou condutores para evitar um sobreaquecimento tem em comum este objetivo. No entanto, cada vez mais é necessária a consciência de que as instalações elétricas, além de causa de um incêndio, são um meio para a sua propagação e quanto maior a edificação, mais extensa e complexa são as suas instalações e maior será o desafio de evitar ou combater um incêndio que aconteça nela.

Ao compartimentar o fogo em seu local de origem, ela evita sua propagação, fornece estanqueidade, diminui as perdas financeiras, oferece segurança aos ocupantes do edifício e facilita os trabalhos dos bombeiros e brigadas de incêndio.

A proteção ativa está mais presente no nosso cotidiano e são sistemas já conhecidos pela maioria dos profissionais. São os extintores, sprinklers, hidrantes, alarmes e outros equipamentos que necessitam de um acionamento manual ou automático para seu funcionamento. Conforme a ABNT NBR 14432:2000, proteção passiva “é o conjunto de medidas incorporado ao sistema construtivo do edifício, sendo funcional durante o uso normal da edificação e que reage passivamente ao desenvolvimento do incêndio, não estabelecendo condições propícias ao seu crescimento e propagação, garantindo a resistência ao fogo, facilitando a fuga dos usuários e a aproximação e o ingresso no edifício para o desenvolvimento das ações de combate”.

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Além do isolamento térmico, a PPCI (Proteção Passiva Contra Incêndio) oferece estanqueidade, impedindo a passagem das chamas e da fumaça. Os gases tóxicos e aquecidos que são liberados na combustão são a principal causa de morte e de problemas respiratórios nesses eventos. A fumaça ainda causa pânico e dificulta a visibilidade (Figura 1), atrapalhando a evacuação dos ocupantes e a ação das brigadas de incêndio.

De acordo com a National Fire Protection Association Handbook (NFPA), a compartimentação nas edificações é qualquer barreira que impeça ou limite a propagação das chamas de um ambiente para outros adjacentes. Para a obtenção da compartimentação, é comum a utilização de vedadores corta-fogo que podem ser produtos, como espuma e blocos intumescentes, argamassas especiais, almofadas para isolamentos temporários, placa de fibra mineral com revestimento ablativo, entre outros produtos que devem atender a uma classe de resistência, o TRRF (Tempo Requerido de Resistência ao Fogo). Segundo a Instrução Técnica 03 dos bombeiros, TRRF é a duração de resistência ao fogo dos elementos construtivos de uma edificação, estabelecida em norma, que varia de 30 a 120 minutos, dependendo da norma de teste e do órgão certificador. É aplicada em aberturas nas quais passam instalações elétricas, hidráulicas e de comunicação.

Outro aspecto muito importante, e que deve ser considerado em projeto para a proteção de um edifício, é assegurar que os sistemas de segurança, como saída de emergência, detecção automática de incêndio, chuveiros automáticos, iluminação e sinalização de emergência mantenham-se operacionais durante o evento, para isso, utilizam-se de alguns sistemas de proteção passiva, como a proteção dos cabos para manter os respectivos circuitos funcionais, e materiais de bandejamento e fixação que suportem por um determinado período o fogo para manter as rotas de fuga desobstruídas. Os cabos que devem continuar conduzindo a corrente durante um incêndio podem ser colocados em dutos resistentes ao fogo por um determinado tempo, definido em projeto. Alternativamente existem dutos, que, ao contrário, evitam que o incêndio em seu interior contamine o ambiente em que eles estão instalados.

Existem vários produtos disponíveis para utilização que necessitam ser especificados em projeto e para isso devem ser conhecidos pelo projetista, como as almofadas intumescentes, a lã mineral, as placas pré revestidas, dentre outros. Os principais fabricantes de produtos para PPI disponibilizam suporte técnico, catálogos com as características de cada produto e softwares que auxiliam na especificação e quantificação do material que deve ser utilizado.

Após a sua instalação, o sistema de PPI deverá possuir uma dupla certificação, dos produtos e da sua instalação. Normalmente, o instalador é certificado pelo fabricante do produto, mas mesmo assim é aconselhável que o sistema possua a dupla certificação.

Depois de aplicado, toda a atenção deve ser dada às alterações nas características da edificação, como novas aberturas ou passagem de novos cabos pelas vedações já existentes. Por isso, o responsável pela edificação deverá manter documentado todo o projeto da PPI e cuidar para que ele seja continuamente atualizado.

A necessidade da utilização dos sistemas de proteção passiva contra incêndios acompanha o aumento das edificações em seu tamanho, fluxo diário de pessoas e complexidade. Ela está ligada diretamente às instalações elétricas e aos profissionais responsáveis por elas.

Por ser uma exigência relativamente nova e envolver engenheiros eletricistas, arquitetos e engenheiros civis, demandará um esforço considerável na sua divulgação, treinamento e normatização.

Por Tatiane Musardo e Sergio R. Santos – O Setor Elétrico – Edição 116 – 2015